sábado, 2 de março de 2019

A bestialidade me deixa muda



Hoje levantei disposta a escrever sobre amor, mesmo que tenha pela frente um sábado com vizinhos que falam a 200 decibéis e ouçam o pior tipo de música (posso chamar essa tranqueira de duas notas de música?) do universo. Parece que estou dentro da saga do Mochileiro das galáxias ouvindo poesia Vogon. E não. A solução do problema não é 42.

Precisava escrever algo para o blog, mas tudo me parecia fútil diante das notícias. Uma criança morreu em um hospital, de uma doença que já deveria estar erradicada, pois há vacina para ela. O primeiro problema? É neto de um ex-presidente da República que está preso.  Isso já é um problema por si só e uma tragédia.

Mas não para por aí. Perfis diversos das redes sociais se inflamaram ante a notícia e foi um festival de horrores, de gente comemorando a morte de uma criança, de gente “achando” um absurdo que o presidente tivesse licença para enterrar o próprio neto. Eu realmente acredito que temos uma nação de gente muito doente, que ri de tragédias; que culpa vítimas; que vê um crime ser cometido e não se move.

É o cara que vê o linchamento ou o estupro e ao invés de usar o celular para chamar a polícia, usa para filmar a cena e postar nas redes sociais. Como chamar isso? Eu chamo de canalhice da pior espécie.

Mas isso foi só a gota d’água. Esta semana o desfile de barbaridades deixaria muito cronista com assunto para fazer uma tese. Esta semana revivi algumas coisas da ditadura militar que eu e milhões de brasileiros engolimos quando um ministro muito imbecil manda uma nota para ser lida nas escolas enquanto crianças são filmadas cantando o hino nacional.

Muitos professores que conheço resolveram filmar suas salas de aula, sendo inundadas pelas chuvas que caíam torrencialmente; com carteiras e mesas quebradas; sem cadernos e livros; com crianças de pé no chão porque não têm sapatos. E causaram um surto em certo ministro, porque o site do ministério não tinha capacidade de recepção para tantos gigabytes...

Poderia ser uma piada, mas isso também é trágico, porque vejo ano após ano, governo após governo (em todas as esferas) ignorar o apelo de pais e professores por escolas melhores, por valorização do ensino. Mas o que vemos é um sucateamento dos equipamentos construídos com os nossos impostos e uma desvalorização total de tudo o que signifique CONHECIMENTO.

Criamos uma nação de imbecis que nem percebe que está sendo roubada da pior maneira possível, porque não consegue usar o cérebro para ver o que está sendo esfregado na sua cara. Temos um governo que vai se esforçar muito para deixar tudo pior que já está.

As escolas sucateadas? São culpa de anos a fio de desgoverno total. E não se limitam a 13 ou 14 anos meus caros. Isso é ter falta de memória e de vergonha na cara para dizer o mínimo. Vou falar um pouco do estado onde eu vivo, São Paulo, a “locomotiva da nação”, governada desde tempos imemoriais pelo PSDB, que até começou bem, mas desceu a ladeira e não parou mais de fazer bobagens.

São obras superfaturadas intermináveis ou jamais iniciadas. Escolas sendo fechadas. Professores ganhando cada vez menos e sendo massacrados, seja na hora de lutar pelos próprios direitos, seja na hora de fazer das tripas coração e tentar ensinar algo às nossas crianças.

Nos tempos da ditadura, que existiram sim senhores e senhoras, cantávamos o hino antes de ir para as salas de aula, que já estavam bem sucateadas, em escolas que estavam pouco melhores que as de agora (não eram de lata, pelo menos), com uniformes comprados a custo por nossos pais ou conseguidos nas associações de pais e mestres, assim como nossos caderninhos brochura e o que mais viesse.

Nada de grife. Nada da Disney. Nada tecnológico.

A coisa caiu muito e é culpa nossa. Porque passamos a dar importância ao supérfluo e esquecemos o essencial. E nem vou falar que a violência de agora é maior que a de antes, apenas os meios de comunicação se tornaram mais rápidos para divulgá-la.

Portanto, não quero saber se o perfil que destilou ódio é falso ou verdadeiro. Uma pessoa muito má fez aquilo. Pessoas que não pensam em mais ninguém deixam escolas destruídas e ainda querem “professores e alunos motivados”. Uma criança morreu de uma doença para a qual existe vacina. E idiotas questionam se um avô pode ou não enterrar o próprio neto.

Como eu disse no título, a bestialidade me deixa muda, mas não trava meu cérebro. A bestialidade que vejo nas redes sociais, e ao redor de mim, não me tiram a habilidade de escrever, porque a bestialidade não entende que escrever é um ato de amor. Se com isso eu conseguir que uma só pessoa acorde para a vida, que seja. Eu venci.



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